Palavra do bispo Dom Manoel João Francisco

Postado dia 31/01/2019 às 08:30:24

Jornada Mundial da Juventude

Na semana passada, dos dias 22 a 27 de janeiro, no Panamá, realizou-se a 32ª Jornada Mundial da Juventude. Do Brasil, participaram 5.898 jovens. Na nossa diocese de Cornélio Procópio, não houve nenhum envolvimento neste importante acontecimento. 
A presença e as palavras do Papa Francisco, como já acontecera, no Rio de Janeiro e em Cracóvia, foram de novo “fortes, simples, penetrantes e inspiradoras”. Aproveito deste espaço para transcreve, quase na íntegra, o que ele falou no encerramento da “Via Sacra” celebrada no dia 25 no Campo Santa Maria La Antigua.  
“Senhor, Pai de misericórdia, nesta Faixa Costeira, juntamente com tantos jovens vindos de todo o mundo, acabamos de acompanhar o vosso Filho no caminho da cruz; caminho esse, que ele quis percorrer por nós, para nos mostrar o quanto nos amais e como estais envolvido na nossa vida.
O caminho de Jesus para o Calvário é um caminho de sofrimento e solidão que continua nos nossos dias. Ele caminha e sofre em tantos rostos que padecem a indiferença satisfeita e anestesiante da nossa sociedade, sociedade que consome e que se consome, que ignora e se ignora na dor dos seus irmãos.
Também nós, vossos amigos, Senhor, nos deixamos levar pela apatia e o imobilismo. Tantas vezes nos derrotou e paralisou o conformismo. É difícil reconhecer-vos no irmão sofredor: desviamos o olhar, para não ver; refugiamo-nos no barulho, para não ouvir; tapamos a boca, para não gritar.
Sempre a mesma tentação. É mais fácil e mais «gratificante» ser amigo nas vitórias e na glória, no sucesso e no aplauso; é mais fácil estar próximo a quem é considerado popular e vencedor.
Como é fácil cair na cultura do bullying, do assédio, da intimidação, do encarniçamento sobre quem é fraco!
Para vós, Senhor, não é assim! Na cruz, vos identificastes com todo o sofrimento e com quem se sente esquecido.
Para vós, Senhor, não é assim, porque quisestes abraçar todos aqueles que muitas vezes consideramos não dignos de um abraço, uma carícia, uma bênção; ou, pior ainda, nem nos damos conta de que precisam disso, ignoramo-los.
Para vós, Senhor, não é assim! Na cruz, vós vos unistes à via-sacra de cada jovem, de cada situação para a transformar numa via de ressurreição.
Pai, hoje a via-sacra do vosso Filho, prolonga-se no grito sufocado das crianças impedidas de nascer e de tantas outras a quem se nega o direito de ter uma infância, uma família, uma instrução; nas crianças que não podem jogar, cantar, sonhar; prolonga-se nas mulheres maltratadas, exploradas e abandonadas, despojadas e ignoradas na sua dignidade; e nos olhos tristes dos jovens que vêem ser arrebatadas as suas esperanças de futuro por falta de instrução e trabalho digno; prolonga-se na angústia de rostos jovens, nossos amigos, que caem nas redes de pessoas sem escrúpulos – entre elas, encontram-se também pessoas qu e dizem servir-vos, Senhor –, redes de exploração, criminalidade e abuso, que se alimentam das suas vidas.
A via-sacra do vosso Filho prolonga-se em tantos jovens e famílias que, absorvidos numa espiral de morte por causa da droga, do álcool, da prostituição e do tráfico humano, ficam privados não só do futuro, mas também do presente. E, assim como repartiram as vossas vestes, Senhor, acaba repartida, maltratada a sua dignidade.
A via-sacra do vosso Filho prolonga-se nos jovens com rostos franzidos que perderam a capacidade de sonhar, criar e inventar o amanhã e «chegam à aposentadoria» com o dissabor da resignação e do conformismo, uma das drogas mais consumidas no nosso tempo.
Prolonga-se na dor escondida e indignada de quantos, em vez de solidariedade por parte duma sociedade repleta de abundância, encontram rejeição, sofrimento e miséria, e além disso acabam assinalados e tratados como portadores e responsáveis de todo o mal social.
A paixão do vosso Filho prolonga-se na solidão resignada dos idosos, que deixamos abandonados e descartados.
Prolonga-se nos povos nativos, despojados das suas terras, das suas raízes e da sua cultura, silenciando e apagando toda a sabedoria que têm e nos podem oferecer.
Pai, a via-sacra do vosso Filho prolonga-se no grito da nossa mãe Terra, que é ferida nas suas entranhas pela contaminação da atmosfera, a esterilidade dos seus campos, o lixo das suas águas, e se vê espezinhada pelo desprezo e o consumo enlouquecido que ignora razões.
Prolonga-se numa sociedade que perdeu a capacidade de chorar e comover-se à vista do sofrimento.
Sim, Pai! Jesus continua a caminhar, a carregar e a padecer em todos estes rostos enquanto o mundo, indiferente e num cômodo cinismo, consuma o drama da sua própria frivolidade”.
A Jornada Mundial da Juventude passou sem nos chamar a atenção. Esta mensagem do Papa Francisco, porém, não pode cair no vazio. Precisa calar profundamente em nossos corações. Por isso, fiz questão de transcrevê-las.


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