Palavra do bispo Dom Manoel João Francisco

Postado dia 16/01/2019 às 16:13:15

Mártires

No próximo domingo, os católicos do mundo inteiro estarão celebrando a memória do mártir São Sebastião, morto por volta do ano 280, final do século III, sob a perseguição de Diocleciano. Seu túmulo encontra-se na catacumba a ele dedicada, sob uma magnífica basílica em Roma. 


Pouco se sabe da vida de São Sebastião. A primeira informação, comprovadamente histórica, vem-nos de Santo Ambrósio, um século depois.
“Tomemos o exemplo do mártir Sebastião; hoje é seu dia natalício. É originário daqui, de Milão. Talvez o perseguidor já tivesse se afastado ou talvez ainda não tivesse vindo a este lugar, ou fosse mais condescendente. De qualquer modo, Sebastião compreendeu que aqui, ou não haveria luta, ou ela seria insignificante.
Partiu então para Roma, onde por causa da fé havia uma tremenda perseguição. Lá sofreu o martírio, isto é, lá foi coroado. Assim, no lugar onde chegara como hóspede, encontrou a morada da eterna imortalidade” (LH, vol. III, p.1194).

O Breviário Romano traz o seguinte relato: “Sebastião, filho de pai narbonense (Narbona era uma região da Gália) e de mãe milanesa, foi muito querido por Diocleciano. Tendo sido delatado como cristão, Diocleciano procurou por todos os meios desviá-lo da fé no Cristo. Como nada conseguisse, ordenou que o amarrassem a um tronco e o transpassassem com flechas. Tendo sido julgado morto, uma santa mulher de nome Irene, mandou buscá-lo, durante a noite, a fim de lhe dar uma sepultura. Percebendo que ainda estava vivo, cuidou dele em sua própria casa. Restabelecido dos maus tratos, com maior intrepidez apresentou-se ao imperador e o acusou de impiedade. O imperador, muito irado pela severa censura, ordenou que Sebastião fosse a çoitado até que expirasse. Seu corpo foi lançado numa cloaca. Uma cristã, chamada Lucina, avisada em sonho onde estava o corpo, sepultou-o numa catacumba, onde foi edificada uma célebre igreja dedicada à sua memória”.

São Sebastião foi um dos milhares de mártires da Igreja dos primeiros séculos. No entanto, não pensemos que o martírio seja algo do passado. Hoje, como no começo da Igreja existem cristãos e cristãs capazes de derramar o próprio sangue por fidelidade à sua fé. Aliás, na opinião do Papa Francisco, os mártires de hoje são mais numerosos do que os mártires no início da Igreja. Esta não é uma afirmação de efeito. O Papa assim se expressa porque tem dados concretos.

Em 2013, o Centro para a Liberdade Religiosa do Instituto Hudson publicou um texto intitulado: “Perseguidos. O Ataque global aos Cristãos”. Neste texto afirma-se que: “Os Cristãos são o grupo religioso mais amplamente perseguido no mundo de hoje. E essa terrível tendência está em ascensão”. Segundo uma estimativa feita pela Conferência dos Bispos Católicos da Comunidade Europeia, 75% dos atos de intolerância religiosa são direcionados aos cristãos.

Na Nigéria, mais de uma centena de fiéis foram mortos em bombardeios à igrejas no Natal de 2011. O Iraque viu pelo menos setenta bombardeios a igrejas em oito anos. Na Arábia Saudita, o Grande Mufti, maior autoridade religiosa do país, declarou que é “necessário destruir todas as igrejas da região”.  
Estatísticas recentes do Pew Research Center dizem que o mundo é um lugar cada vez mais religioso. Mas também é um lugar cada vez mais intolerante com os cristãos. Em 2/3 dos países do mundo, também de acordo com o mesmo Centro de Pesquisa, a perseguição piorou nos últimos anos”.
 

Não pensemos que martírios acontecem somente em países, onde os cristãos são minorias. Também em países majoritariamente cristãos existem mártires. É o caso do Brasil, onde os mártires são vítimas de outros cristãos. Eu mesmo convivi com um desses mártires. Trata-se de Marcelino Chiarello, morto em 2011 na cidade de Chapecó. Quando o conheci, ele já era um cristão engajado nos trabalhos pastorais de sua comunidade e envolvido na luta por políticas públicas em favor do povo humilde. Movido por suas convicções, candidatou-se e foi eleito vereador duas vezes, exercendo o mandato de 2004 a 2011. Consciente de que devia como vereador dar seu testemun ho de cristão, passou a denunciar os esquemas de corrupção no município.

Enquanto as denúncias se resumiam a pronunciamentos na tribuna da Câmara, nada lhe aconteceu. Mas quando o Ministério Público começou a dar-lhe razão, os envolvidos nas denúncias simplesmente assassinaram quem lhes estava sendo “pedra no sapato”. 
Marcelino conhecia a Palavra de Deus. Sabia, portanto, dos riscos que corria. Mesmo sabendo que não se deve buscar o martírio, nem se expor imprudentemente a ele, era convicto de que o cristão não foge dos desafios, não fica de braços cruzados, nem de boca fechada, diante da injustiça e das desigualdades. Por isso, “sem medo fez da vida do povo a sua, tomou suas dores e fez delas a força para lutar por uma sociedade melhor” (placa no túmulo).


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